
VALE (Manuel do) & VARELA (Bartolomeu) & VASCONCELOS (Luis Mendes de) & LUIS (Manuel).— PARODIA AO PRIMEIRO CANTO DOS LUSIADAS DE CAMÕES POR QUATRO ESTUDANTES DE EVORA EM 1589. Lisboa. Na Typographia de G. M. Martins. Rua de Ferregial de Baixo, 22. 1880. In-8.º de X-36-[II] págs. B.
Curiosa e raríssima paródia camoniana da autoria de Manuel do Valle, Bartolomeu Varela, Luís Mendes de Vasconcelos e Manuel Luís, estudantes ao tempo que a escreveram, 18 anos após o aparecimento do Poema de Camões.
Opúsculo registado com desenvolvido comentário por H. de Campos Ferreira Lima no ensaio bibliográfico «As Paródias na Literatura Portuguesa».
Das páginas preliminares do opúsculo: “[...] A grande obra do unico homem de genio que talvez tenha produzido a nossa terra, não podia isentar-se d’este fado onherente ás grandes celebridades. Eram apenas passados dezoito annos depois da publicação dos ‘Lusiadas’ — ainda a reputação de Camões não estava consagrada pelos seculos, quando alguns homens engenhosos comprehenderam que aquella obra immortal era uma d’aquellas a que a parodia era devida. O resultado de seus trabalhos não é de certo para comparar com nenhuma das espirituosas producções que ficam mencionadas; mas ainda assim não é esta inteiramente destituida de merecimento. Francisco Soares Toscano, bem conhecido dos litteratos pelo seu ‘Parallelo de Principes’, escreveu uma interessante noticia sobre esta obra, em que nos conta o curioso modo por que ella foi composta. Quatro estudantes da Universidade d’Evora costumavam sair a passear, ás tardes, aos arrabaldes da cidade, levando comsigo os Lusiadas. Chegados a um verde ferrageal, sentavam-se a uma fresca sombra, e se abria a sessão parodiadora. Assim como a engelhada e disforme mascara de uma velha megéra cobre o rosto radiante de formosura de uma elegante ‘Coquette’, para mais fazer realçar seus encantos, quando deixe cair aquelle hediondo disfarce; assim o immortal poema devia ser desfigurado por aquelles travessos estudantes. Os Gamas, Castros e Albuquerques tinham de ceder seu logar aos Catigelas, Lunas e Barbanças, barões sem duvida tão assignalados nos combates de Baccho como ess’outros nos de Marte.
“Dois mezes durava aquella sessão extraordinaria; e já tão continuados passeios davam que fallar aos estudantes e tambem dariam que entender á Santa Inquisição d’Evora, se aquella sociedade secreta não fosse composta, como de facto o era, de quatro theologos, e tão orthodoxos, que um d’elles veio a ser Inquisidort Geral. Mas por fim appareceu a mysteriosa obra dos quatro patuscos, como hoje lhe chamaria um academico, e não sei se já então lhe chamavam. A este modo de composição de sociedade e ás emendas que depois soffreu dos curiosos, como adverte Toscano, se deve talvez a confusão do enredo d’este poema. Parece que seus collaboradores tinham principalmente em vista inverter ao ‘de-vinho’ cada verso que entrava em discussão, sem attender à coherencia do todo. É provavel que se propozessem a celebrar os mais famosos bebedores Evorenses, aos quaes alludissem, e talvez nomeassem por seus proprios nomes ou apellidos. Toscano, que os devia conhecer, assim o indica quando diz que tinha feito varias cotas a esta parodia para melhor se entender. [...].
“Os collaboradores d’esta innocente profanação litteraria não são inteiramente desconhecidos. ‘Manoel do Valle de Moura’ natural de Arrayolos no Alemtejo, doutorou-se em Theologia na Universidade d’Evora, e chegou a ser Arcebispo d’esta diocese e Inquisidor geral. Contava vinte e cinco annos quando concorria para esta composição, e chegou a uma avançada idade. Além da obra ‘De Encantationibus et Ensalmis’, de que falla Toscano, e outras de não menor utilidade, Barboza o faz auctor de uma Illustração á primeira Ode de Camões’. [...]. Nem ‘Bartholomeu Varella’, nem o Licenciado ‘Manoel Luiz’, tiveral a honra de encher as columnas da Bibliotheca Lusitana; mas João Baptista de Castro de ambos faz menção no seu Mappa de Portugal. Não é comtudo a Varella, como elle pensa, que cabem os louvores que lhe dá por esta composição burlesca. Manoel Luiz Freire — que assim lhe chama um Padre Francisco da Cruz, citado por Castro, — se deve ter como o principal e mais chistoso collaborador desta obra. [...]. O quarto dos theologos, e ao que parece o mais theologo de todos, foi o pobre ‘Luiz Mendes de Vasconcellos’, cujo ronceiro estro só lhe pôde inspirar um unico verso. Não se confunda este obscuro individuo com o auctor do ‘Sitio de Lisboa’ e da ‘Arte militar’, supposto fossem contemporaneos. [...].
“Esta parodia chegou a alcançar certa celebridade, ainda que até agora nunca fosse impressa. [...]”.
Exemplar por abrir, com vestígios de acidez próprios da qualidade do papel.
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