COLAÇO (Tomás Ribeiro).— [CARTAS E POESIAS]. 14 Cartas dirigidas ao escritor Campos Monteiro, datadas entre 1924 e 1933, de diferentes formatos e com diverso número de folhas e 4 poesias subordinadas ao título geral de "Má-Língua", assinadas "Taço".
Interessantíssimas e extensas cartas de Tomás Ribeiro Colaço, advogado, poeta e dramaturgo português [1899-1965]; fundador do semanário literário «Fradique» [1934]; segundo Daniel Pires, no «Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX», T. Ribeiro Colaço foi “monárquico e conservador, pautou a sua acção pela polémica. por um agitar de águas que é sempre fecundo, muito especialmente na época em que se vivia, pouco propensa ao debate de ideias, com uma censura sempre célere a sufocar quem primasse pela heterodoxia. No entanto, é lícito afirmar que o tom polémico foi exagerado, sendo por vezes ignorado o que era acessório e o que era fulcral. [...]”.
Curioso conjunto epistolográfico dirigido a Campos Monteiro onde se referem os mais diversos assuntos: fala de obras teatrais suas, de Virgínia Vitorino e de outros escritores; "Creio que me seria facil demonstrar-lhe que os miolos de um escriptor, mesmo fritos, naõ podem competir com os de vitela; em primeiro lugar, porque em regra os escriptores naõ tem miolos; se os tivesse, consagrava-se a mais lucrativos misteres, desde o fabrico de bombas à sapiente adulteração de generos."; Era até curioso fazer um inquerito... chimico-culinario ao que dariam os pseudo miolos litterarios de alguns vultos conhecidos, depois de postos no fogão. "Que les singes me mordent", como dizia Victor Hugo, se a espinal medulla do nosso bem amado Dantas, submetida a cocção e trituramento, não desse 125 de pó de arroz... Também me permito protestar contra a sua allusão aos alfayates! Quer mais espinhosa e ardua missão do que a de vestir um Paiz que só usa camisas de onze varas?"; "Tambem nada soffremos com a revolução, revelação de tantas traiçoeiras cobiças e tantas correntes subterraneas, que mais uma vez confirmaram a sua admiravel prophecia... Houve tragedia, houve comedia o costume. [...] Tinha-me chegado a lavadeira n'aquelle dia, (2ª f. creio) e estava ella prosaicamente a "dar a roupa" quando estoirou a revolução. Essa senhora vive num palacete a dois passos do Principe Real. Na impossibilidade absoluta de fugir de casa, refugiou-se toda a familia na cave (d'ahi o verbo cavar?) com varios vizinhos de predios altos. Ouviam-se tiros e bombas continuamente; cahiam granadas no jardim e no andar de cima. Um horror! Pois imagine que um desses vizinhos, e amigo da casa, tem uma lesão cardiaca adeantadissima; e que, para cumulo, a lavadeira, com a sua bela fecundidade de saloia, estava nos ultimos tempos da gravidez. De maneira que a nossa amiga, refugiada 3 dias na sua casa, tinha, do enormissimo susto pessoal... e intransmissivel, a permanente preocupação de que, ao primeiro estoiro mais forte, lhe estoirasse para um lado o cardiaco e para o outro lhe desse à luz a lavadeira!"; "Se me permitisse a moralidade publica, eu vestiria uma camisa de pano cru, (à falta do burel de antanho...) e ia-me de longada pelas estradas dos nossos montes e valles, - ou pelos montes e valles das nossas estradas. - até S. Mamede de Infesta. Ahi, compraria na tenda uma corda daquellas que amarram fardos de bacalhau, (são as mais asperas...) armando-a em laço à La Vallière. E, sem talvez dessedentar o meu cançaço, batia-lhe ao ferrolho a soluçar perdão, perdão, perdão. É que eu sou na verdade um grande criminoso! E só esta transmigração de Egas Moniz, (não me acuse de errar as proporções do quadro!...) poderia resgatar-me em minha consciencia. Juro-lhe no entanto que o meu silencio foi o 'Crime de um Homem Honesto', cujo espirito tem 'saude e fraternidade'. e é incapaz de pagar a sua generosa sympathia com uma negra ingratidão, 'moeda corrente' entre as almas deste descarado seculo... "Fallei difficil"? talvez... Fallei sobretudo 'fora de móda'... mas era um bom tempo, 'quando se fallava assim!'..."; Considerações sobre o livro «Perdão Tardio» de Campos Monteiro; "A Marqueza de Rio Maior, - uma das mais altas figuras da aristocracia e do espírito da nossa terra - dictou à minha mãe, durante uns 5 anos, as suas 'Memorias'. Como tinha vivido 80 annos, e, de D. Maria II até D. Manuel, 5 reinados conhecêra; Dama da Rainha D. Maria Pia, figura maximamente marcante da sociedade, e sobretudo isso, como tinha uma memoria assombrosa e muitissimo espirito, as 'Memorias' que dictou, e que só agora estão promptas, são verdadeiramente deliciosas. A minha mãe, devido à sua doença e complicações varias, passou-me para as mãos os muitos cadernos de almasso em que recolhera os dictados, e eu ajudei a coordenar, rever, articular, o que estava por assim dizer em bruto. (...) Estamos agora a pensar em - publical-o. As Memorias estão em moda outra vez; estas, fallando tanto da Corte e de inumeras pessoas conhecidas, contando casos e coisas com muita leveza, devem ter, - se o exito cabe em qualquer previsão - um grande exito de venda. [Dá depois um sumário da Obra, dizendo que "isto é um apontamento feito de memória, e mal feito", falando depois da possibilidade da obra ser publicada pela Civilização, à custa de sua mãe]; em outra carta fala da possiblidade de se publicar a obra pela Parceria António Maria Pereira; Numa das cartas refere-se com vagar ao livro de Campos Monteiro «As Duas Paixões de Sabino Arruda»; "A Censura [palavra sublinhada] é realmente a coisa mais divertida deste mundo! Quer defender a Dictadura, - e só corta aquilo que reforça a causa da mesma, deixando livre expansão a tudo quanto indirectamente a diminuir."; "Cumprindo o que lhe prometi, aqui lhe mando trez 'nótas' para o inquerito aos escriptores: - "Como perfumaria os seus livros". Sahiram-me bastante más, isto é, bastante mais "venenosas" do que eu tinha pensado, - e, porvestranho que pareça, 'foi sem querer'"; "Está claro que quando o meu amado Ferro publica 'D'Annunzio e Eu' (e elle...) — o livro cheira a esturro... E é obvio, indiscutivel, que a sua "Leviana" cheira a sovaquinho. Tambem não soffre, quanto a Antonio Botto, dúvidas que Houbigant é o perfumista indicado; e é igualmente manifesto que o Britto Camacho usa nas suas obras perfumes de Pias, sua terra natal. O Teixeira Gomes perfumará a sua prosa com catinga — não porque não seja um requintado, mas porque é o perfume das Cartas de Africa"; "Lisongeia-me muito que a censura me escolha para alvo dilecto do seu chanfalho. Olhe... Eu compuz justamente este "Madrigal a uma velha insupportavel" [transcrito na íntegra]. É uma replica à 'Maldição', de Olavo Bilac. Mas elle fez só um sonêto, e eu fiz... um acrostico! Lá se lê, com todas as lettras: - Raios te partam, censura [palavras sublinhadas]. Veria que, 'isso' passava. Mesmo que, sob o nome que lhe puz, e num discreto perentesis, levasse a indicação: - (acrostico). Porque elles, com certeza que não sabem o que isso é!..." Juntamos onze folhas com quatro poesias assinadas "Taço", destinadas à secção «Má Língua», com os seguintes títulos: «Carta aberta a uma andorinha»; «Na praia...»; «O voto feminino» e «Miscelânea de Inglaterra».
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