
ORTIGÃO (Ramalho).— BANHOS DE CALDAS E AGUAS MINERAES. Com uma Introdução de Julio Cesar Machado. Porto. Livraria Universal de Magalhães & Moniz - Editores. 1875. In-8.º gr. de 135-V págs. E.
Interessante, muito estimado e procurado livro sobre os principais mananciais de águas termais de Portugal, seus usos e costumes na sociedade portuguesa do século XIX.
“D'antes o costume em Portugal, nos mezes de verão era tomar ares. Quem fosse gente tinha casa no campo e em chegando o mês de maio emigrava para a quinta [...] e ia espantar com as modas novas os habitantes tranquilos das circunvisinhanças. Iam logo as familias dos sitios visitar os recem-chegados, e as senhoras de Lisboa produziam por lá uma impressão extraordinária [...]
A vida moderna faz doenças novas, que encontram allivio no descanço e na distracção; distrahir-se alguem em Lisboa de abril a outubro é difficil: as caldas conciliam tudo: mudança de ares, exercicio amêno, banhos, copinho, peregrinação, entretenimento, ‘vita nuova!’. Era indispensavel adoptar este regimen, e o enthusiasmo por elle está sendo sincero. [...].
“D’este louvavel emprehendimento vae o livro — BANHOS DE CALDAS E AGUAS MINERAES — ser de ora em diante o melhor guia e o melhor companheiro. A existencia n’essas paragens é para nós um viver excepcional; os logares, provavelmente, não hão-de ser em extremo recreativos; mesmo os doentes que possam passear bastante, não hão-de ter que vêr em certas distancias senão relva ondeando á mercê da brisa como um mar de verdura, arvoredo, montes, e talvez algum lobo que ande a espairecer em procura do seu arranjo, rondando os sitios, de ouvido á escuta para fugir em sentido bulha. As pessoas que para alli vão ou estão doentes, ou fazem como se estivessem; uns tomam banho: outros de manhã bebem agua, e á noite chá: ondas de agua quente por diversos modos e sabor differente. Os passeios e os ‘pique-niques’ são o divertimento [...]
“Para toda essa gente, os que se acham n’aquellas paragens com o proposito de tratar da saude e os que os acompanham, este livro é decerto o que, por mil motivos, mais os deve entreter. As descripções estão escriptas com uma elegancia que faz crescer o desejo de visitar as localidades: téem a graça pittoresca que dá a feição ao sitio; é como que uma carteira de viajante a vêr muito em pouco tempo, passando a cada instante de um assumpto para outro, descrevendo a paisagem, mencionando alguma costumeira mais notavel, e alguma memoria historica em a havendo, carteira com muitos apontamentos, de fórma que se leia sem cançar e acorde o interesse sem se demorar em coisas sabidas ou inuteis. Trata agradavelmente das nossas aguas nacionaes, aguas portuguezas, e das paisagens, dos montes, das cascatas, dos rios, dos valles, de tudo que póde attrahir, para vêr se se acaba com a mania de termos maravilhas para as não explorar, desdenhando o que é nosso, o que nos está perto e facil, e fazendo com que, se é certo que ninguem seja propheta na sua terra, esta tenha a especialidade de ser tida sempre em pouca conta pelos que são d’ella naturaes, excepto quando alguem soltar alguma verdade dura, que então principiam todos a defendel-a por espirito de contradição. [...]”.
Edição ilustrada com numerosas gravuras intercaladas nas páginas do texto e em folhas à parte.
Primeira edição, a mais estimada e valiosa.
Boa encadernação com larga lombada e cantos de pele, decorada com nervuras, rótulos e ferros dourados fundidos em ‘casas fechadas’; com as capas da brochura conservadas, tintado à cabeça e com as restantes margens intactas
Exemplar cuidado, com leves manchas de acidez, próprias da qualidade do papel.
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