Manuel Ferreira é um dos mais antigos e conceituados alfarrabistas do Porto. Começou a sua actividade ainda criança e, hoje, com 61 anos, vê a sua obra continuada por dois filhos, que lhe seguem as pisadas. O nosso entrevistado começou por ler «O Mosquito», aos 10 anos, e, agora, tem uma biblioteca particular invejável. Tem milhares de clientes, de todos os estratos económico-sociais, desde o estudante até ao Presidente da República.
Manuel Ferreira começou a apaixonar-se pela leitura aos 10 anos e, como as suas posses não eram grandes comprava os livros em segunda mão, vendendo-os depois de lidos. Um pouco mais tarde, por volta dos 15 anos, já consegue ter uma pequena biblioteca, expondo alguns livros na montra de um estabelecimento de móveis da Travessa de Cedofeita. Mais tarde, no mesmo local, aluga um pequeno espaço, que lhe serve de armazém.
Pode dizer-se que é nesta altura que o seu negócio começa a desenvolver-se. Muda-se daquela artéria, uns anos mais tarde, em 1959, para a Rua Formosa, hoje sede da sua livraria. Possui ainda um armazém, de dois pisos, na Rua do Dr. Alves da Veiga – um local onde guarda mais de 50 mil exemplares.
É amigo dos poucos alfarrabistas que ainda existem na cidade, lembra os já falecidos e disse que o primeiro livro que comprou em segunda mão foi no Guedes da Silva – Livraria Académica.
Os livros que vende são, geralmente, adquiridos em bibliotecas particulares. «São vendidos pelos herdeiros dos coleccionadores que não estão interessados em continuar com a colecção, ou pelo próprio coleccionador que ainda em vida quer ter a certeza de que os seus livros não são desbaratados, por um ou outro coleccionados, em apuros económicos». Manuel Ferreira adquire também os livros em leilões.
O nosso colunável de hoje está vocacionado para a literatura portuguesa, antiga e moderna, para os livros de arte, arquitectura, história, etnografia, monografias locais e revistas de interesse cultural, principalmente.
Elucidou-nos que a data de um livro não é determinante, sendo mais importante a qualidade da obra e a sua raridade do que a data em que foi impresso, tendo acrescentado que um livro de um autor moderno pode ser mais valioso do que um livro com 200 ou 300 anos.
Clientela potencial
Os seus cliente são essencialmente bibliófilos – temáticos e de autores -, historiadores, estudantes universitários, catedráticos, e outros com as mais diversas profissões, de todos os estratos sociais e económicos. o seu cliente mais conhecido de todos é o Presidente da República, Mário Soares, que, segundo o nosso entrevistado «tem um leque de preferências muito vasto. A sua biblioteca é a de um homem de cultura e faz parte dos seus gostos a documentação manuscrita e impressa, com incidência na História da República».
Manuel Ferreira é especialista na organização de catálogos, tendo já elaborado 91, 31 dos quais destinados aos mais de 1.300 clientes de ficheiro, a quem os envia regularmente.
Estes catálogos, que contam com a colaboração dos seus dois filhos, indicam o nome da obra e autor, como não podia deixar de ser, o seu estado de conservação, e o preço – fixo -, além de outras apreciações pontuais.
Na posse do catálogo, o cliente encomenda a obra ou obras, através de faz, telefone, carta ou pessoalmente,
A biblioteca particular
Manuel Ferreira, como já dissemos, começou a ler desde muito novo. Gostaria de reter na sua biblioteca particular algumas obras que lhe passam pelas mãos, mas «não me posso prender a elas efectivamente, pois sou comerciante».
No entanto, tanto quanto apurámos, o nosso amigo é possuidor de uma invejável biblioteca bibliográfica relativa à sua profissão, com temas sobre estudo de livros, encadernações, ex-libris, mapas, manuscritos e outros, que, «além de ser imprescindível à minha profissão, é uma opção que vem colmatar os meus desejos de não poder ser um bibliófilo».
