
VASCONCELOS (João Teixeira de).— MEMÓRIAS DE UM CAÇADOR DE ELEFANTES. [...]. Edição de Maranus. [...]. Porto. 1924. In-8.º de 190-II págs. E.
Interessantíssimo livro de aventuras africanas de João Teixeira de Vasconcelos, prefaciado por Raul Brandão: “A primeira vez que vi êste homem extraordinário foi numa fotografia ao pé dum enorme bicho caído por terra com uma bala na cabeça. Era um colosso formidável, informe como um saco de carvão donde saiam dois dentes brancos e agudos. Mas nuito mais formidável ainda se me afigurou desde logo, o homem esfarrapado e minúsculo, de espingarda na mão, que se atrevêra a bater-se com a fera gigantesca. [...].
“Mais tarde na solidão de Travanca [Amarante], sob o céu tão próximo naquelas alturas da serra e todo coalhado de estrêlas, é que ouvi contar as caminhadas através da floresta virgem do Congo, a navegação pelos rios interiores ainda desconhecidos, o grande incêndio do mato que arde durante mêses, as caçadas sob um céu implacável, através das selvas em companhia dum preto, com uma espingarda às costas — e compreendi não só a decisão, a audácia, o sangue frio do caçador de elefantes, mas a beleza da vida livre na África onde o homem só conta consigo e com Deus. Ouvi-lhe quàsi todo êste livro — a hecatombe dos bichos formidáveis, a alegria expontânea dos negros, e certos pormenores que nunca mais me esqueceram e ainda hoje me encantam. [...].
“— Mas, perguntei, como se matam êstes bichos?
“— É a coisa mais fàcil dêste mundo dizia um inglês: a gente coloca-se na linha férrea, a vinte metros da locomotiva dum expresso a toda a velocidade, aponta, acerta no farol da máquina, e dà um salto para o lado para não ser irremediàvelmente morto!
“E dito isto convidou-me com a maior naturalidade para a primeira caçada a realizar no Congo. Oh não! prefiro lê-lo neste livro de aventuras, ou ouvi-lo nos mêses de verão na encantadora casa de Pascoais, entre aquelas quatro paredes onde toda a famìlia unida trabalha na construção dum mundo melhoe e mais belo. Desde o pai que conheci aos setenta anos tão moço como os rapazes, e que todos os dias quando regressava a casa das vinhas que tinha plantado, apanhava e trazia na mão, num gesto maquinal mas significativo, uma pequena pedra, até ao mais novo dos filhos, todos acarretam materiais para a mesma edificação ideal.
“Uns são lavradores, ou, como êste, homens de acção, pioneiros da civilização africana. Outro chama-se Teixeira de Pascoais, o maior poeta contemporâneo. Foi ali na casa solarenga, com um pátio onde pode manobrar um regimento, olhando nos serões a família sentada à volta da mesa que eu compreendi e se me radicou no espirito a ideia de que a tradição se mantém e que o sonho que nos liga é dos vivos e dos mortos. [...].
Com ilustrações fotográficas impressas nas páginas de texto.
EXEMPLAR PERSONALIZADO COM DEDICATÓRIA DO AUTOR.
Encadernação à amador de apurada execução; tintado à cabeça e com as restantes margens intactas, conserva as capas da brochura.
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