
NAMORA (Fernando).— OS ADORADORES DO SOL. Cadernos de um escritor. Publicações Europa-América. [Lisboa. 1971]. In-8.º gr. de 234-VI págs. B.
“«Há momentos em que um homem, que é feito do que possui, do que recusou e do que perdeu, olha em redor e olha para si, sendo tentado a restituir à árvore as folhas que dela se desprenderam.» Estas palavras, extraídas do pórtico de ‘Um Sino na Montanha’, definem exemplarmente os ‘Cadernos de Um Escritor’, de que Fernando Namora nos oferece agora o segundo volume. Estes textos, abrindo uma nova frente da vasta actividade literária do criador de ‘Retalhos da Vida de Um Médico’, evidenciam, na sua estrutura sóbria, a capacidade de efabulação que transformou Fernando Namora num caso ímpar da nossa literatura. E na sua variedade subjaz o trepidante motor desse estilo, tão formoso como poderosamente incisivo, que nos proporcionou obras como ‘O Trigo e o Joio’ e ‘Domingo à Tarde’.
“Em ‘Os Adoradores do Sol’ é-nos facultada uma visão, dessas latitudes da noite branca onde o Sol assume um misticismo litúrgico. Idade de ouro da sociedade de consumo, ou jazigo dourado do capitalismo. a Escandinávia aparece-nos, na apreciação avisada de Namora, como a encruzilhada onde, por um lado, se consubstanciam as metas mais generosas da Revolução Industrial e onde, por outro, afluem os detritos mais característicos do sistema de vida desencadeado por essa Revolução. Acrópole e necrópole, pois que, a par de um extraordinário avanço científico e tecnológico e de uma espectacular organização social, grassa a «doença da felicidade», cuja sintomatologia se detecta, principalmente, no «boom» assustador do sexualismo.
“Fruto das viagens do escritor, ‘Os Adoradores do Sol’ leva-nos ainda à região nórdica da União Soviética. Como se as águas do Báltico dividissem dois mundos, depara-se-nos agora um tipo de sociedade totalmente diverso, bem patente num comportamento humano que inevitavelmente nos leva a estabelecer comparações.
“Como se adivinha, ‘Os Adoradores do Sol’ reúne um aliciante conjunto de perspectivas sobre problemas controversos e actuais, E, em contraponto, agita-se, na quietude interrompida do nosso ruralismo, a promessa ou, caso se prefira, a ameaça de um tempo que ainda não vivemos, mas que inexoràvelmente caminha na nossa direcção. As palavras de Fernando Namora, transcendendo o âmbito da crónica de viagens, atingem-nos com o impacte de uma profecia e soam-nos como o eco antecipado do «tempo de ruína e de gestação», em cujo limiar nos encontramos já.”
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