
CARNÉ-MARCEIN [Conde de] [1804-1876].— PORTUGAL NO SECULO XIX, Por ‘Luiz Carné’, Publicado na Revista dos Dous Mundos; Traduzido em Portuguez, e annotado pelo traductor. [brazão com as Armas de Portugal]. Coimbra: Na Imprensa da Universidade. — 1837. In-8.º de 55-[I] págs. Desenc.
Opúsculo bastante invulgar, erradamente atribuído no «Ensaio Bibliográfico» de Ernesto do Canto a Luís Carvoé.
Com interesse para a história de Portugal no contexto peninsular e europeu.
“Extensamente examinámos, e com a devida attenção, um grande interesse nacional, a situação da Hespanha, as vicissitudes da sua fortuna, e as causas das presentes calamidades. Parece-nos havermos mostrado palpavelmente a ‘solidariedade’ da França e do reino, cuja sorte lhe pertence fixar, e terminar seus longos padecimentos. Com esta questão liga-se outra sem dúvida secundaria pela sua importancia relativa, mas que é mister comtudo conhecer para seguir o movimento das idéas na Peninsula, assim como o encadeamento das principaes transacções europêas. A questão portugueza é o appendice obrigado da questão hespanhola: ella também é fecunda em noções elevadas, dado que na sua exposição não se deva esperar de a ver sustentada pela mesma sympathica curiosidade.
“Ha vinte annos que Portugal offerece aos olhos do mundo um espectaculo d’escandalo sem apresentar importancia d’interesses, grandeza de theatro, ou energia d’acções. Esta terra d’heroismo aonde longinquos reis mandavão em tributo seus diamantes e perfumes, e que segundo o cantor inspirado pelos derradeiros reflexos de sua gloria, brilhava na extrema da Europa como corôa della [...], hoje despojada de riquezas e de poder, tendo sua origem no velho regime da feudalidade claustral, sem força sobeja para operar sua transformação pelas idéas contemporaneas, conserva-se immovel entre o passado e o futuro, em uma especie de profunda apathia.
“Tem-se em vão succedido as revoluções, em vão uma constituição tem derribado outra, o paiz vê e deixa passar, oppondo a força d’inercia aos innovadores, sem prestar mais energico auxilio aos retrogados. Desde a primeira revolução do Porto de 1820 até os movimentos recentes de Lisboa, o povo portuguez quasi que se eliminou das contendas, mais longas que sanguinolentas, em que sua sorte foi decidida. Vio-se alternadamente mudarem-se as leis fundamentaes ao bel-prazer dos quarteis de tropa, e dos palacios. No decurso de dez annos enlearão-se intrigas e conspirações, cujos resultados a nação parecia acceitar com indifferença, á roda d’uma mulher, que consagrando ao odio os restos d’uma vida exhausta por outras paixões, envenenou os ultimos dias d’um esposo indulgente, e impellio até á rebelião e ao prejurio um principe que tanto pela intelligencia, como pelo coração, não passára d’um homem vulgar, a não terlhe sua mãi imbuido a energia de sua indomita vontade.
“João VI. terminando entre lagrimas, no convento real de Mafra [...], uma vida, da qual sua familia lhe havia feito um longo supplicio, defendendo a integridade de seus estados, invadida por um de seus filhos [...], e a liberdade, ou talvez a existencia, pelo outro: punhaes mysteriosos traspassando durante a noite o peito dos amigos pessoaes do infeliz monarca; uma joven princeza atravessando os mares em cata d’uma corôa, disputada por seu tio e noivo; dous irmãos disputando entre si com mão armada um reino exhausto; eis as scenas, que a impassibilidade nacional faz ainda sobresair mais, e reconduzem o pensamento para os serralhos do oriente; ou para os palacios sombrios dos reis merovingios! Custa a acreditar que tudo isto se passasse no seio da propria Europa; mas á impressão do assombro vem depressa unir-se outra: estudando com algum cuidado a longa serie destes eventos, e procurando a raiz delles na historia e no genio nacional, não custa perceber que o porvir deste povo não lhe pertence, e que sua causa é o accessorio d’outra causa. Sente-se que a independencia de Portugal, em outro tempo obra de sua coragem, não prende desde então no definhamento da Hespanha, e que a ‘unidade’ [...] será o resultado do movimento peninsular, como manifestamente ella é o seu principio. [...]”
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